Maria Antonieta teria de moderar seu ódio por Madame Du Barry, a quem julgava totalmente indigna de permanecer na corte. Se tratava de uma meretriz que havia enfeitiçado Luís XV com seu corpo. O rei, já velho, casou a prostituta com um nobre que convenientemente sumiu do mapa, assim a teria em sua corte e ninguém poderia contestar. A delfina, que sempre fora ensinada a detestar tais pessoas de tão baixo calão, principalmente por sua mãe, agora ignorava a existência da inimiga. Uma rixa se fez entre as duas, Du Barry, como tinha um cargo mais baixo, não poderia dar a primeira palavra à Maria Antonieta, e Maria Antonieta, com um cargo superior, não queria lhe dirigir a palavra.
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| A madame Du Barry |
Para a delfina era uma questão de honra. Como não tinha uma opinião formada, foi influenciada por suas tias, solteironas de meia idade. Ninguém via Du Barry como uma dama, já que tinha tido uma infância pobre e um titulo totalmente comprado. Pobre moça, na verdade era apenas mais uma do "povão" com educação um pouco mais elevada que gozada de seus direitos e luxos na corte, a custa é claro de Luís XV. Não era uma mulher má, porém o dinheiro lhe subiu à cabeça, e seu cargo - mesmo que fosse totalmente falso - deveria ser respeitado.
Como uma austríaca qualquer - não literalmente qualquer já que se tratava da delfina da França! - poderia se opor à amante do rei? Como alguém, qualquer um, poderia se opor à amante do rei? Todos sabiam muito bem de que Du Barry era capaz, já que Luís XV estava enfeitiçado por sua beleza e faria tudo pela amada.
Se tratava de um rei velho, nos seus sessenta anos, cansado de governar. Para ele, bastava! Queria tranquilidade e sossego! Iria finalmente usufruir de sua posição para em vez de pensar em assuntos de guerra - ou mesmo na pobreza em que o povo francês se encontrava - pensar somente em seu prazer e diversão. Ali estava Du Barry, que como propriamente uma prostituta, oferecia seu corpo e amor em troca de jóias e posição social. Convenhamos que a maioria das mulheres da época também fariam essa troca, já que a população passava fome e viviam em condições precárias. Madame Du Barry era só mais uma que se aproveitou da necessidade de Luís XV. Se essa atitude, essa troca, era explicável e compreendida, só Deus poderia julgar.
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| A delfina Maria Antonieta |
As tias viam em Du Barry uma prostituta - o que não deixa de ser verdade - e passavam essa mesma imagem à jovem Maria Antonieta.
Como uma meretriz qualquer - não literalmente qualquer já que se tratava da amante de Luís XV! - poderia se opor à delfina da França? Como alguém, qualquer um, poderia se opor à delfina da França? Seus pensamentos contradiziam os de Du Barry - pensamentos não propriamente dela, não é mesmo?! A grande necessidade de odiar a amante do rei era na verdade a decepção das tias vendo que o lugar de sua mãe fora tomado por uma "qualquer". Uma mulher, vinda de uma casa pobre, tomara o lugar de Maria Leszczynska e seu poder. Du Barry poderia não ser a rainha, mas governava como tal, em lugar de Maria ou das próprias filhas de Luís XV, as tias.
Fizeram a cabeça de Maria Antonieta, que passou a odiar com todas as forças a rival. Nenhuma palavra tinha dito até ai. Se passaram semanas, meses... Nenhuma palavra. Nem sequer um olá. Nem sequer um sorriso. A delfina permanecia a ignorar a existência da amante de Luís XV, o que passou a ser murmurinho em toda a corte francesa. Quem ganharia:
a austríaca ou a meretriz? Reuniam-se para apostarem quando ou
se a tal palavra seria dita. A recém chegada Maria Antonieta já arrumava intrigas? Sua mãe, Maria Teresa, cansada de a advertir, se via numa posição extremamente desconfortável. Logo a situação iria incomodar Luís XV e sem filhos, a delfina poderia facilmente ser trocada e a paz com a Áustria desfeita. Recomendou a Mercy a dar todos os incentivos à Maria Antonieta, para que a mesma dirigisse a palavra à madame Du Barry.
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| Madame Du Barry |
Uma mulher contra uma menina, ambas poderosíssimas, ambas orgulhosas, ambas determinadas a conquistarem o que quiserem. De um lado, a madame só queria uma palavra, apenas uma, e de outro, a delfina recusava a concede-la.
Du Barry passou a atormentar Luís XV com choramingos contando toda a injustiça que sofria na corte. Como todos a viam como uma prostituta, e como isso só ficara mais reforçado quando "a austríaca" não lhe dirigiu a palavra. Como previa Maria Teresa, o rei passou a ficar incomodado com tais reclamações. A amante interrompia sua tranquilidade queixando-se de não ser bem tratada. Aquele não era um bom líder para o país, era um velho que queria se divertir à custa da França, importando-se mais com mulheres e luxos do que com guerras. Não queria qualquer tipo de incomodo, muito menos vindo de quem lhe dava prazer.
Maria Antonieta sabia que ao neglicenciar uma favorita do rei estaria também ofendendo o mesmo. Mas para Luís XV isso demorou a cair a fixa. Quando finalmente percebeu tal coisa, no meio de mais um dos choramingos constantes de Du Barry, mandou chamar imediatamente a Condessa de Noailles, a dama de companhia da delfina, e ordenou que passasse o recado: a palavra teria de ser dita. Pressionada por sua mãe, por seu fiel - nem tanto - confidente Conde Mercy, por sua dama de companhia a Condessa de Noailles e agora pelo rei, foi obrigada a ceder.
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| A delfina Maria Antonieta |
Seria uma derrota humilhante para a delfina - quem diria, perder para uma prostituta? - mas inevitável. Se passavam dias, as tias a impediam, passavam mais alguns, ela ficava com medo, se passavam mais e mais, ela não encontrava oportunidades para falar com Du Barry. Todos esperavam apreensivos para o dia em que tal façanha aconteceria, principalmente Du Barry. Não era por propriamente orgulho, aquela mulher ainda tinha seu lado humilde de pequena camponesa, mas por posição social.
E em 1 de janeiro de 1772 a frase finalmente foi dita "
Há muitas pessoas em Versalhes hoje", bastava aquilo. Maria Antonieta, apesar de humilhada, seria de novo muito querida pelo rei. Todos os murmurinhos se voltaram contra a delfina, riam de sua humilhação. Seu orgulho estava despedaçado.
Mas mesmo derrotada jurou, em nome de tudo o que lhe fosse mais sagrado, que nunca mais dirigiria a palavra a desprezível meretriz. "
...Aquela mulher não ouvirá mais o som de minha voz". Du Barry já estava satisfeita, isso bastava. Vencera a delfina da França! Apesar de depois tentar se reconciliar com a menina, estava muito feliz pelo acontecimento. Quem ganhou a disputa, aparentemente Du Barry, mas quem sabe ao certo, não é?! "
Há muitas pessoas em Versalhes hoje", uma frase com poucas palavras mas uma força enorme.